domingo, 13 de março de 2011

Um quarto escuro

As lembranças das vezes que ali esteve passam correndo. Tenta fazer com que elas fiquem mais um pouquinho de nada, só pra saborear os diferentes tipos de dor. Olha pro teto, a porta daquele banheiro que tantas pessoas já usaram, imagina se a vida delas é melhor ou pior que a sua .
Então pensa que se a vida vale a pena, vale as dores sentidas.
É preciso dinheiro para as diárias. Os lençois razoavelmente limpos, o serviço de quarto em horários extremamente corretos. Então é pra isso que se trabalhou todos aqueles anos? Por um quarto escuro, um ventilador barulhento e uma tv sem utilidade, no alto da parede.
A cama não é confortável, é pequena e não lembra em nada a que está no quarto que dorme todas as noites. 
A intenção é esquecer os problemas. Quais problemas? A diária que foge do orçamento, a casa não terminada, os filhos com suas dores. 
Fecha os olhos, respira bem fundo e tenta fazer o exercício.
A diária, o dinheiro, o orçamento, o trabalho.
Pensa quantas pessoas que precisam e não podem estar naquele quarto, pensa nas pessoas desabrigadas, nas famílias que só vivem com um chão e um papelão.
A diária, os remédios e os aluguéis serão pagos. O trabalho foi pra isso, não faltará dinheiro no orçamento, o trabalho possibilitou investimentos. Há de onde tirar. Não faltará nem roupa, nem um bom almoço, se ainda quiser, pode não faltar nem um belo par de sandálias. 
E se quiser mais um cadinho, pode até viajar de avião. Pensando bem, o que é o cansaço se é possível até voar?
Começa a imaginar que tinha um problema que se chamava trabalho, dinheiro, diária.
E a casa que não está pronta? A viagem de avião é boa, mas a sala da casa ficaria bem bonita com uma cortina esvoaçante. Um cheirinho de tinta alegraria o dia.
Voltaria a sorrir olhando as cores? Já esteve feliz olhando uma paleta com todas aquelas cores de tinta?
Lembrou de quando escolheu a melhor tinta automotiva para as janelas, em uma cor que combinaria perfeitamente com a cor da varanda. 
Na varanda hoje mora lindas orquídeas, de várias cores. Sensíveis, belas, coloridas. Acha que até as orquídeas sorririam com tanto cuidados em seu lar. Elas são tão vivas!
Quando respira fundo outra vez e abre os olhos, percebe que não se lembra mais dos primeiros problemas. Tantas coisas que se pode fazer, tanto com o que viver!
Acha, pela primeira vez, que fazer acontecer pode ser melhor que sonhar.

(continua...)

3 comentários:

  1. Vinicius14.3.11

    esperando a segunda parte...

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  2. Nanda... lindo!!! É um conto finalmente!!!

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  3. Devia ter colocado antes que a primeira parte estava aqui né, Ca?!
    Mas é escrevendo e aprendendo. Já editei.
    Obrigada pelo carinho!

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